quarta-feira, 21 de abril de 2010

Os livros impróprios, Dr. Amadeu e o bode expiatório

Paulo, um funcionário público concursado, orgulhava-se de seu trabalho na secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Tinha seu próprio escritório. Nunca chegava atrasado, era o primeiro a entrar e o último a sair. Às vezes excedia seu tempo de trabalho não para receber horas extras, já que o Estado não paga, mas porque amava o que fazia e o fazia com muito prazer.

Vindo de uma família humilde, Paulo conseguiu vencer na vida e se tornou o único dentre todos da família que possuía um diploma de curso superior. Todos se orgulhavam dele.


Meticuloso, sistemático, Paulo conferia tudo que chegava em suas mãos. Adepto do fazer a coisa certa, Paulo chegava até a irritar seus colegas de trabalho com tanto cuidado com que ele fazia as coisas. Ele era o exemplo, tanto é que por causa de sua eficiência, ele tinha sido convidado para um cargo de confiança de um novo secretário da pasta. E Paulo assim ficava feliz.

A grana do orçamento para a área da educação tinha sido finalmente aprovada e assim um projeto para a área seria aprovado, e Paulo iria encabeçar todo o trabalho, conforme assim prometera o seu superior.

A grana estava destinada a compra de livros para as crianças do fundamental para um certo programa de leitura, e Paulo começou a formar a sua equipe, que iria revisar os livros que seriam comprados das editoras.

Mas como sempre, qualquer coisa no Estado é para ontem, e Paulo deve indeferida a criação da equipe. O seu superior dizia que não dava tempo e que tinha uma lista de livros e revistas, que deveria ser liberada o mais rápido possível.
- Mas Dr. Amadeu, o senhor está me dizendo que iremos comprar das editoras sem uma necessária leitura dos livros, ou seja, vamos apenas marcar os livros que compraremos, mas com qual critério?
- Paulo, não seja tão chato. Veja bem, aqui está uma lista de livros que a Editora Merdoni nos enviou. Eles me garantiram que são livros adequados para a escola. Portanto vamos usar o bom senso, por exemplo, olha só esse livro aqui, ele se chama "Poesia da Noite - Poetas de ontem para Leitores do Amanhã", pelo que vê, se trata de um livro com poesias do cotidiano, perfeito para os nossos aluninhos, que precisam aprimorar a leitura e ao mesmo tempo aprender a gostar de poesia...
Nesse ínterim, Paulo interrompe e diz:
- Mas, senhor, não haverá uma revisão sobre o que deve estar escrito nesse livro? Será que o conteúdo é próprio para os nossos alunos?
- Deixa de ser besta, homem. Eles precisam ler, qualquer coisa basta. Veja só o resultado do Saresp, lastimável. Eles precisam ler. Olhe por exemplo, esse outro livro, "Vinte na área, três na banheira e alguém no gol", é um livro sobre futebol, perfeitíssimo, é um assunto do cotidiano deles e usa a linguagem dos quadrinhos, que é próprio para as crianças. Portanto, não tem erro, marque esses dois e escolha mais 48, dessas quatro listas que estou dando em suas mãos. Você vai ter uma bela compensação depois.
- Como, senhor - perguntou Paulo assustado - que tipo de compensação?
Com um sorriso levemente maroto e cínico, o Dr. Amadeu disse:
- Está tudo dentro da lei, meu filho. Sempre sobra algo para nós nessas licitações.

E assim, Paulo, mesmo com uma dor na consciência, relacionou os livros para o Programa do Governo. Dias depois, sua conta bancária estava bem gorda. Seu superior lhe disse para não se preocupar. Pelo trabalho feito, Paulo havia ganho um bônus, e que dali em diante, novos bônus poderiam surgir, desde que seu trabalho satisfizesse seus superiores.

E a bomba estourou meses depois. Todos os meios de comunicação noticiaram que muitos dos livros indicados eram impróprios pra os alunos do fundamental. Muitos deles recheados de palavrões e incitações á violência. De quem seria a culpa, dos técnicos do governo que não fizeram a devida revisão ou das editoras que usaram de má fé indicando pura e simplesmente os livros sem se importar à quem estavam destinados?

A editoras se defenderam, dizendo que lhes foram pedido uma lista de livros onde os estado iria verificar e comprar para o programa de leitura. Nunca em nenhum momento, as pessoas do estado disseram que esses livros seriam destinados para alunos da 3ª série do fundamental.

Do outro lado, o governo se defendeu, dizendo que nas diretrizes do programa, estavam a leitura e verificação de cada livro escolhido por uma equipe de técnicos especializados. Dando a entender que deve ter sido uma falha humana.

Bem, o dinheiro foi pago, algumas editoras festejaram e saíram do vermelho. Algumas pessoas no governo levaram as suas partes já que a compra foi superfaturada, como sempre nesse país.

O Dr. Amadeu, entrou em férias e foi viajar para a Europa.

E o pobre Paulo, héin?

Bem... Alguém teria que levar toda a culpa, não é mesmo?


Esta é uma obra de ficção. Os nomes aqui citados, bem como as obras e suas editoras, são fictícios. Qualquer semelhança é uma mera coincidência. Se bem que... É melhor eu ficar quieto!


Fonte da imagem
(by A. J. Rosário - 31/05/2009)
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.
Crônica publicada no CrazySeawolf's Blog
BlogBlogs.Com.Br